Correio Popular | Casos de violência contra profissionais de enfermagem acendem sinal de alerta

Agressões verbais, psicológicas e físicas fazem parte da rotina de quem atua na linha de frente do sistema de saúde

Paulo Marcelo afirma já ter visto profissionais de enfermagem sendo xingados e ameaçados dentro da unidade de saúde (Alessandro Torres)

Uma pesquisa realizada entre os meses de março e junho de 2025 pelo Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo (Coren-SP) revelou um cenário alarmante de violência enfrentada por profissionais da enfermagem em todo o estado. O levantamento, que contou com a participação de 7.745 trabalhadores, 234 de Campinas, apontou que agressões verbais, psicológicas e físicas fazem parte da rotina de quem atua na linha de frente do sistema de saúde.

De acordo com o estudo, as três principais agressões relatadas foram verbais (61,5%), 22,2% físicas (22,2%) e psicológicas (10,6%). Além disso, 53,8% dos ouvidos relataram que sofreram agressões mais de uma vez, 27,7% relataram sofrer algum tipo de violência frequentemente, enquanto 18,3% disseram ter sofrido de violência apenas uma vez. A grande maioria dos casos ocorreu na rede pública, 68,8%. A rede particular veio em segundo lugar com 28,2%, enquanto as redes filantrópica e suplementar apareceram com 3% e 1,7% respectivamente.

Embora não haja um recorte específico para Campinas nos dados de 2025, as situações de violência refletem uma situação que já havia sido exposta em 2023. Na ocasião, o Coren-SP detectou que na cidade mais da metade dos entrevistados relataram que sofreram com violência mais de uma vez, sendo as violência mais comuns a verbal, psicológica, física e sexual, principalmente por conta das estruturas da instituição de saúde, seguida pela demora no atendimento.  

O estudo também mostrou que 86% das vítimas de agressões são mulheres, o que reflete tanto a predominância feminina na categoria quanto fatores estruturais de violência de gênero. Para Wagner Batista, primeiro secretário do Coren-SP, há uma percepção equivocada de vulnerabilidade associada às mulheres. “Existe machismo estrutural. Muitos agressores acreditam que a mulher é mais frágil e que podem se aproveitar dessa crença”, afirmou. 

Uma enfermeira da rede municipal, que atua há dois anos no serviço público, relatou ter registrado três boletins de ocorrência após sofrer ameaças e agressões verbais no exercício da função. O caso mais grave envolveu uma ameaça de morte feita por um paciente insatisfeito com a demora no atendimento em uma unidade sobrecarregada, onde a profissional trabalhava sozinha e sem médico. Segundo ela, a precariedade do serviço e a alta demanda acabam recaindo sobre quem está na linha de frente, transformando os profissionais em alvo direto da frustração dos usuários.

Além das ameaças, a enfermeira descreve episódios de desqualificação profissional e violência verbal, incluindo situações que avaliou como racismo, ao ter sua competência questionada por pacientes. Em outro caso, recebeu ameaças e xingamentos por mensagens enviadas ao WhatsApp institucional da unidade.

Após os episódios, passou a apresentar sinais de adoecimento psicológico e recebeu apenas acolhimento pontual, sem mudanças estruturais. A profissional criticou a falta de responsabilização dos agressores e afirmou que denúncias de violência contra trabalhadores da saúde ainda são frequentemente minimizadas. 

Em outro relato, uma profissional que trabalha em uma Unidade Básica de Saúde (UBS) contou que foi agredida verbalmente por uma paciente na última quinta-feira, 8. A paciente não teria gostado do resultado de um tratamento realizado por outra profissional e retornou à unidade para reclamar, resultando em ofensas e ameaças à mulher que se quer era responsável pelo atendimento prestado.

Em outra ocasião, no dia 24 de dezembro, ela foi abordada por um suposto líder comunitário. Ele a encurralou contra a parede para que ela atendesse um amigo imediatamente, fora do horário da urgência. O homem desistiu do atendimento quando o guarda da unidade de saúde foi acionado. “Houveram outros ainda, porém esse de ontem (quinta-feira) ainda está doendo, tanto que tive uma crise hipertensiva. Infelizmente essa é a realidade que passamos diariamente”. 

“Eu já vi profissionais de enfermagem sendo xingados, ofendidos e ameaçados dentro da unidade de saúde”, relatou Paulo Marcelo, 50, que acompanhou o pai durante uma internação no Hospital Mário Gatti. Segundo ele, situações de agressividade partiam principalmente de homens exaltados, inconformados com a espera.

“A pessoa quer ser atendida na hora, acha que a prioridade dela é maior do que a dos outros e começa a gritar, ofender, ameaçar. Já presenciei várias vezes pacientes quase partindo para cima dos funcionários”, afirmou. Para ele, a tensão constante e a superlotação acabam criando um ambiente hostil, no qual os profissionais ficam expostos à violência cotidiana.

A assistente administrativa Cauíza Garcia, 27, também relatou ter presenciado agressões direcionadas principalmente às enfermeiras, quando levou a filha pequena para ser atendida no Mário Gattinho. “Quem acaba ouvindo mais é a enfermeira e a recepção. Elas não têm culpa da demora, mas são as primeiras a receber a revolta dos acompanhantes”, disse.

Em um dos casos, foi necessária a presença policial após uma mãe, desesperada com o estado de saúde do filho, se exaltar diante da equipe. “A gente entende o desespero, mas dá para ver que muitos profissionais trabalham com medo. Eles ficam ali tentando ajudar, mas acabam sendo tratados como responsáveis por problemas que são do sistema”, completou.

Para o presidente do Conselho Municipal de Saúde, Paulo Mariante, os dados trazidos pelo Coren reforçam estatisticamente o que já era alertado pelo próprio conselho, que é a situação de vulnerabilidade dos profissionais que atuam na linha de frente da Saúde. “Em conferência municipais já apontamos, há bastante tempo, a necessidade da elaboração de políticas públicas que devem prevenir que essas situações de violência aconteçam, especialmente na rede pública de Saúde”. 

Em Campinas, existe um projeto de lei, proposto pelo vereador Wagner Romão (PT), que pretende instituir um protocolo municipal de prevenção e resposta à violência no trabalho de enfermagem. Além disso, o Coren-SP está promovendo por todo o Estado campanhas de conscientização e acolhimento aos profissionais vítimas dessas situações. 

Intitulada de “Saúde SIM. Violência NÃO”, a campanha é vista como um grito de basta aos casos registrados. O presidente do Sinsaúde e também da Federação Paulista da Saúde, Edison Laércio de Oliveira, disse que a intenção da campanha é que a insatisfação com a ineficiência dos serviços, como demora no atendimento, falta de médicos e medicamentos, entre outros, não seja descontada dos trabalhadores, que são a linha de frente dos cuidados tanto no setor público quanto privado e filantrópico.

“Ao contrário, são eles que seguram com as mãos todas as falhas”, disse. Edison orientou aos diretores do Sinsaúde que iniciem movimentos em suas cidades para mostrar à população que o trabalhador da saúde não tem culpa pelos atrasos, longas esperas ou falta de medicamentos. “Vamos procurar as câmaras municipais, prefeitos, secretários de Saúde, conselhos municipais, realizar audiências públicas, pedir apoio das instituições, empresas e chamar os trabalhadores para que relatem suas experiências”.

Para Anis Mitri, presidente da Associação de Hospitais e Serviços de Saúde do Estado de São Paulo (Ahosp), os casos de violência são inadmissíveis e precisam ser registrados em Boletim de Ocorrência. Ele também afirmou que as unidades de saúde, incluindo hospitais particulares, devem prestar acolhimento psicológico e jurídico de forma imediata ao profissional. “Além disso, é importante que o profissional tente nunca realizar um atendimento sozinho, que tenha sempre um outro parceiro junto e que, em caso de necessidade, ele deve chamar a polícia imediatamente”. 

Procurada, a Prefeitura de Campinas afirmou que a Secretaria de Gestão e Desenvolvimento de Pessoas desenvolve formações de liderança, de combate ao assédio e de instrução a todos os temas de direitos humanos para os servidores. A medida contribui para instruir e orientar os gestores a lidar com questões sociais e institucionais para promover um ambiente mais protetivo ao servidor, com ferramentas para um diálogo mais efetivo também com a população. O programa de atenção psicossocial, por exemplo, é outra ação preventiva e protetiva ao impacto das violências na saúde mental do servidor. A ampliação de equipes, feita com frequência, e consequente redução de tempo de espera nos serviços é outro exemplo de medidas que auxiliam na redução de conflitos nas unidades da Prefeitura.

A Secretaria de Saúde informou que os profissionais vítimas de qualquer tipo de violência são orientados a procurar pelas autoridades competentes para que os episódios sejam investigados e os responsáveis sejam responsabilizados nas esferas cível e criminal. Alguns órgãos de classe realizam sondagens sobre indicadores, enquanto o papel da Pasta é investir em melhorias e processos educacionais com objetivo de sensibilizar a população e trabalhadores da rede pública.

Os casos de violência registrados nas unidades de saúde em Campinas são tratados de forma individual, sendo que o acolhimento é realizado da mesma maneira pelo programa Cuidando dos Cuidadores, focado em três pilares com propósito de qualidade de vida: prevenção, proteção e suporte. 

As ações do programa incluem acompanhamento terapêutico, diagnóstico situacional; criação de grupos e oficinas nos locais de trabalho com discussões sobre saúde; avaliações ocupacionais; visitas aos locais de trabalho e discussão com os gestores; parceria com os serviços municipais e parceiros, entre outros.

Matéria em: https://correio.rac.com.br/campinasermc/casos-de-violencia-contra-profissionais-de-enfermagem-acendem-sinal-de-alerta-1.1755499

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