Artigo Gazeta de S. Paulo | Perigos ocultos do verão: esporte amador, calor extremo e o coração que você ainda não conhece

O verão, com seus dias longos e ensolarados, costuma despertar nas pessoas o desejo de estar ao ar livre, movimentar o corpo e aproveitar atividades esportivas

É importante entender que o corpo, no calor, já está sob um estresse natural | Freepik

O verão, com seus dias longos e ensolarados, costuma despertar nas pessoas o desejo de estar ao ar livre, movimentar o corpo e aproveitar atividades esportivas que muitas vezes passam meses esquecidas. É a estação em que quadras, praias e parques se enchem de grupos que se reúnem para jogar futebol, correr, pedalar ou disputar um simples vôlei de areia.

No entanto, esse impulso tão positivo para a saúde pode esconder riscos sérios quando não se conhece o próprio estado cardíaco, especialmente ao combinar esforço físico, calor intenso e o consumo de bebidas alcoólicas misturadas com energéticos, uma prática cada vez mais comum e extremamente perigosa.

É importante entender que o corpo, no calor, já está sob um estresse natural. Para manter a temperatura interna estável, ele aumenta a circulação sanguínea para a pele e exige mais do coração. Isso eleva a frequência cardíaca e a necessidade de oxigênio mesmo em repouso.

Quando a pessoa decide praticar um esporte, ainda que de forma amadora, a demanda cardíaca aumenta de maneira significativa. Em condições normais, isso é saudável e esperado.

Mas para quem possui algum problema cardíaco silencioso — como cardiomiopatias, arritmias congênitas, estenoses, hipertrofias ou alterações na condução elétrica, o esforço físico em ambientes de calor extremo pode desencadear sintomas graves que nunca apareceram antes. Há casos em que a primeira manifestação dessas doenças é justamente um mal súbito durante a prática esportiva.

O cenário fica ainda mais perigoso quando se inclui álcool e energético na equação. O álcool provoca desidratação, altera a percepção de esforço, reduz a capacidade de o corpo regular sua temperatura e interfere no ritmo cardíaco.

Já os energéticos, que parecem muitas vezes inofensivos, contêm doses elevadas de cafeína e outras substâncias estimulantes que aumentam a liberação de adrenalina, aceleram os batimentos, elevam a pressão e criam um estado artificial de alerta. A combinação dessas bebidas causa uma falsa sensação de disposição, mascarando sinais de cansaço que deveriam servir como alerta.

Quando esse fenômeno ocorre antes ou durante a prática esportiva no verão, o risco cardíaco se multiplica rapidamente, porque o coração passa a operar sob estresse químico, térmico e físico ao mesmo tempo.

Ainda existe o equívoco comum de que o esporte amador é menos arriscado por não ser competitivo. Mas o corpo não reconhece o contexto social da atividade; ele responde ao esforço físico. Uma corrida de poucos quilômetros feita sem preparo, uma disputa intensa de futebol com amigos ou até um jogo prolongado de frescobol na praia podem gerar uma carga cardiovascular comparável à de atividades mais estruturadas.

O problema se agrava porque, no esporte amador, é frequente a falta de aquecimento, hidratação inadequada, uso de roupas inadequadas para o calor e ausência de pausas, além da tendência de muitos participantes de ignorar sinais iniciais de mal-estar para não “atrapalhar o jogo” ou “fazer feio” diante dos amigos.

Outro ponto essencial é que grande parte das condições cardíacas é silenciosa. Pessoas jovens, ativas e aparentemente saudáveis podem carregar predisposições genéticas ou alterações estruturais que passam despercebidas por anos, até serem desencadeadas por circunstâncias específicas, como um esforço físico intenso em um dia quente após o consumo de álcool e energéticos.

Os exames preventivos são, portanto, fundamentais. Um simples check-up pode identificar riscos que a pessoa desconhecia completamente.

Proteger-se é simples. É importante realizar avaliação cardiológica periódica, evitando adiar consultas e exames. A hidratação deve ser prioridade absoluta, especialmente em atividades ao ar livre.

O consumo de bebidas alcoólicas com energéticos deve ser evitado, principalmente antes da prática esportiva. Respeitar sinais do corpo como palpitação, tontura, falta de ar e dor no peito é uma atitude que salva-vidas, nunca devem ser ignorados ou minimizados. Além disso, é recomendável evitar exercícios nos horários de maior calor, escolher roupas leves e adequadas, fazer aquecimento prévio e, sempre que possível, praticar atividades acompanhado de outras pessoas.

O verão é uma estação vibrante, que inspira movimento e bem-estar. No entanto, para que essa energia se transforme em saúde — e não em risco — é essencial adotar uma postura consciente. Cuidar do coração não é excesso de cautela; é responsabilidade.

Muitas tragédias poderiam ser evitadas com atitudes simples e preventivas. Aproveite o sol, o tempo livre e os momentos de lazer, mas lembre-se de que o seu coração precisa de atenção tanto quanto o resto do corpo.

Um verão saudável começa antes da primeira jogada. E a melhor proteção é a informação. Cuidar-se é o primeiro passo para aproveitar a estação com tranquilidade e segurança.

Artigo publicado em: https://www.gazetasp.com.br/colunista/anis-mitri/perigos-ocultos-do-verao-esporte-amador-calor-extremo-e-o-coracao/1170056/

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